Um guia de como gozar com pessoas Britânicas em frente a pessoas Britânicas
Podia-se ouvir o murmúrio do lado de fora do teatro. Aquele som familiar e, no entanto, tão estranho e fora do lugar. A linguagem torna-se mais intensa à medida que se aventura dentro do recinto, na fila e, finalmente, quando aterra no seu lugar do teatro.
Quase levanta a questão: Esta peça de teatro é em inglês ou português?
Só os estudantes de teatro ingleses na última fila a debater em voz alta a técnica de Meisner enquanto todos esperamos que o espetáculo comece, lembrar-vos-iam que ainda estão em Londres.
O telefone toca quando o espetáculo começa. Josh Hinds, o realizador de Spicy White exige imediatamente a atenção do público quando Elena, a personagem principal e única personagem no palco, se dirigiu diretamente ao público.
Do ponto de vista próprio, a personagem Elena, interpretada por Marta Bonito, guia-nos através da sua decisão de se mudar para um novo país, o que levou a essa decisão, aos estereótipos que uma portuguesa enfrenta em Londres e às diferenças entre namorar homens ingleses em vez de homens ingleses. O espetáculo aparentemente leve consegue apesar disso, abordar as questões mais profundas por trás de todas as piadas “spicy” e ”exotic” que Elena enfrenta expondo-a como xenofobia sistémica num mundo pré e pós-Brexit.
O espetáculo estreou no Backstage Theatre e mudou-se para o Golden Goose Theatre este verão. Foi trazido de volta por duas noites com o Teatro 503 em Londres.
À primeira vista, pode-se assumir que se trata de uma obra biográfica dada a forma como Marta Bonito retrata a história de uma forma tão pessoal e uma vez que se trata de um espetáculo de uma pessoa só. No entanto, as palavras vieram de Carina Simões, que coloca o chapéu tanto da escritora como da produtora de Spicy White.
Carina Simões quer criar uma plataforma para pessoas sub-representadas nas artes no Reino Unido e consegue-a com esta história facilmente relacionável para todos os imigrantes do Reino Unido, enquanto continua a dar uma atenção especial aos mediterrâneos que se encontram invisíveis na grande cidade de Londres.
A performance de Marta Bonito é rápida e espirituosa à medida que Elena muda rapidamente de si e do seu ponto de vista para várias personagens que a rodeiam. Quer sejam os seus amigos e a sua família com sotaques portugueses muito fortes ou clientes e colegas de trabalho com os seus respetivos sotaques britânicos. Ela consegue mudar muito organicamente de Elena para outros personagens e ainda mantém os níveis de energia altíssimos na peça 50 minutos.
Ser capaz de encapsular as piadas mais leves sobre a atrocidade de colocar leite no chá preto, enquanto ainda consegue encaixar alguns comentários sociais sobre xenofobia e racismo, não é nada menos que um desafio.
“Podem dizer que sou exótica ou “spicy”, mas na verdade sou branca, por isso ainda faço parte do problema”.
E enquanto Spicy White faz um trabalho incrível em fazer piadas culturais enquanto comenta questões maiores, falta-lhe algo no sentido de resolução ou, pelo menos, na tentativa de resolução. Ao retratar as suas próprias lutas e cenários de discriminação, a personagem Elena acaba por estereotipar o homem inglês de classe média e incentiva o clássico “faça o que eu digo, não como eu digo”.
Na última cena, a personagem tem um telefonema que é feito em português e nunca traduzido para inglês, possivelmente destacando a divisão cultural que existe hoje e provavelmente amanhã.
Colocando em causa se não somos todos iguais na forma como somos defensivos com as nossas culturas e julgamentos dos outros, mesmo que brancos ou não brancos ou “spicy white”.
